quinta-feira, 22 de junho de 2017

Escola de Bushcraft no Brasil - Parte III



(…) mas quais os regulamentos para isso?

            A Constituição Federal garante o direito individual e coletivo a liberdade de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer (artigo 5º, XIII). Institui a regra da ampla liberdade de trabalho, excetuando-se apenas aquelas atividades tipificadas na legislação penal como ilícitas.

            Para entender a problemática envolvendo a formação de uma Escola de Bushcraft no Brasil temos que, primeiro, saber o que é trabalho, o que é um ofício e o que é uma profissão. Em linhas gerais podemos dizer que: O primeiro se refere a atividade econômica que dispensa regularização legal, como vendedores ambulantes, por exemplo (embora já exista possibilidade de serem regulamentados). O segundo, ofício, exige conhecimento técnico, como motoristas, cabeleireiros etc Portanto, exige regulamentação. Por último, a profissão - essa exige uma formação acadêmica e, geralmente, órgãos regulamentadores da profissão como conselhos etc. Uma Escola de Bushcraft certamente envolve todas essas categorias seja na confecção de cestos, cutelaria, carving até estudos de botânica, zoologia passando pela antropologia e por aí vai.

            Mas quem tem qualificação para atuar nessa atividade? Quem tem o devido reconhecimento legal para ensinar “Bushcraft” no Brasil? É muito relevante termos esse diálogo? Por último, mas não menos importante: Quem avalia o avaliador? A partir desse ponto entramos em uma conversa circular, infrutífera e sem sentido no contexto do Bushcraft. Entretanto, salve engano, se não houver lei estipulando essas qualificações, a liberdade de trabalho é absoluta e garantida pela Constituição Federal.

            Enfim, a beleza disso tudo está justamente nessa mescla indissolúvel entre atividade econômica, ofício e profissão que fazem do bushcraft um corpo de conhecimento imensurável e socialmente importante. Nesse caso, todas essas categorias têm a mesma e vital importância e são uma fonte rica de ensino-aprendizado. Esse é mais um convite à reflexão que o “bushcraft” nos proporciona.

Mas o que levaria alguém a dedicar seu tempo, recursos e até fazer alguns sacrifícios pessoais por uma atividade tão pouco prestigiada no panorama nacional?

Fama e dinheiro?

            Tivemos a oportunidade de conhecermos muitas Escolas de Bushcraft, algumas bem grandes e famosas, outras pequenas e sem muita publicidade, localizadas em pequenos vilarejos. Mas todas, TODAS, sem exceção, tinham algo em comum. Os seus idealizadores tinham um PROPÓSITO bem estabelecido e, por isso, tinham algo a entregar realmente. Quando Ray Mears fundou sua escola de Bushcraft ele tinha apenas 18 anos de idade, era apenas um menino com uma paixão real sobre um tema não muito atraente na época. O “Bushcraft” era coisa de pessoas com baixo nível cultural. Mas então como ele conseguiu ser o que é? Simples! Ele tinha um PROPÓSITO de vida bem definido e sua empresa transmite todos esses valores até hoje. O sucesso e a fama foram apenas consequências desses valores intangíveis que ele cultivou.

           Quem descreve muito bem esse sentimento é o velejador Amyr Klink quando se referia ao seu antigo trabalho e de sua promissora carreira em rápida ascensão em um Banco “ Não havia dor, nem prazer, só uma angústia cada vez maior por não estar realizando nada”. Você até pode ter uma profissão, ofício ou trabalho, ser bem sucedido, pode ter fama, muita fama. Mas se não tiver um propósito bem estabelecido você estará sempre incompleto.

           Algum tempo atrás eu fui abordado por uma repórter para falar sobre um assunto de grande relevância “Agricultura orgânica”. Uau que belo tema, pensei.

Vou relatar o que me lembro daquela conversa:

(eu) - Ok! Mas qual a emissora? A repórter orgulhosa sacou a resposta rápida

(ela) - Emissora ...

(eu) - Hum, me desculpe, mas não vou conceder essa entrevista.

(ela) - Mas por que?

(eu) - Por que não confio no trabalho que vocês fazem e não sei como será a edição e em que contexto vocês vão utilizar o que será dito aqui.

(ela) - Ok! Mas você tem que entender que esse é o meu trabalho.

(eu) - Eu entendo, mas você tem que entender que essa foi a SUA escolha.

E, dessa forma, terminou nossa conversa.

           É muito complicado quando lidamos com a seguinte situação: o que você pensa não está em consonância com o que você fala e o que você fala não está em consonância com o que você deseja. Passamos muito tempo de nossas vidas vivenciando esse tipo de sentimento, principalmente no trabalho.

           Quando o presidente americano Harry Truman ordenou que o Enola Gay lançasse a primeira bomba atômica sobre seres humanos teria dito à tripulação “não percam o sono por terem cumprido a missão: a decisão foi minha, vocês não podiam escolher”.

            E o que nós aprendemos com o julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, responsável pela deportação de milhares de judeus para os campos de concentração?  

O mundo esperava ver um monstro, um antissemita brutal, um nazista fanático. O réu, por sua vez, passou a imagem de um burocrata que teria apenas assinado documentos. Os peritos lhe atestaram a condição de subalterno de pouca iniciativa própria e sem senso de responsabilidade. Após o julgamento, que foi transmitido pela televisão, intelectuais chegaram a se confessar chocados com o fato de Eichmann não ter sido um seguidor fanático de Hitler. Ele insistia que apenas cumpriu ordens e jamais preocupou-se em questioná-las.

http://www.dw.com/pt-br/1961-julgamento-de-adolf-eichmann/a-785685

           Quando escolhemos uma profissão, um ofício ou trabalho seja ele qual for escolhemos por quais razões mesmo? 

Até a próxima, 
Cadu