segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Fogo, fogareiros e o "pega leve" (leave no trace)




         

            Gostaria de fazer algumas considerações sobre o que eu li sobre “Pega leve” e deixar algumas críticas.


             As críticas são principalmente no que se refere a utilização de fogo e fogareiro em acampamentos e a forma como o fogo aberto é tratado.


            Penso que acampamentos são oportunidades únicas e devem trazer uma aguda consciência dos impactos de nossas ações no ambiente natural. Porém, um campista hoje, cozinhando seu jantar com um fogareiro a gás, tem pouca ou nenhuma noção do real de impacto ele está criando para além do seu acampamento. Explico: a utilização de um fogão desse tipo cria um senso fictício de “não deixar nenhum vestígio ou rastro”. É difícil ver e compreender o verdadeiro impacto de cozinhar um jantar em uma espiriteira a álcool. Veja, 100mL de álcool representa um gasto muito maior de energia do que apenas aquela que ele retorna para a panela. Num estado como São Paulo, onde grande parte da florestas foram substituídas por cana de açúcar, quanto isso representa em termos de impacto no solo? Sem falar em transporte, refino, embalagens do combustível que infligem um enorme impacto negativo sobre o ambiente.


            Em algumas situações de acampamentos selvagens um bom fogão “Rocket stove” por exemplo permite muito mais controle sobre o impacto que ele cria, e ainda nos permite fazer escolhas para minimizar esse impacto ou ate mesmo, torná-lo positivo, como molhar as cinzas e espalhá-la no chão da floresta (nutrientes para as plantas), cinzas essas provenientes de material produzido pela própria floresta.

            Obviamente, fogo é sempre motivo de preocupação, mas em algumas áreas o fogo quando bem gerido não levanta problemas, levanta questionamentos profundos! Por outro lado, compreendo que em algumas áreas consideradas sensíveis o fogo poderia danificar o ecossistema, é inaceitável! Assim como deveria ser inaceitável deixarmos uma área se tornar frágil a esse ponto, não acha? Esse sim seria um TEMA para ser duramente debatido entre grupos de excursionistas, campistas , escaladores e a comunidade em geral.

            O que gostaria de deixar claro é que usar um fogão feito de latas (Rocket - woodstove) para cozinhar uma refeição inteira usando um punhado de gravetos secos do próprio local, deixando uma quantidade mínima de carvão, que produz quase nenhuma fumaça e com a possibilidade de espalhar as cinzas + agua = nutrientes para o solo, não parece tão assustador. né? Além disso, esse tipo de fogão não deixa cicatriz alguma no solo, questão comumente levantada quando se trata de fogo aberto. Por fim, com uma chance mínima de ocasionar algum incêndio florestal; neste caso um fumante seria mais perigoso!

            Penso que essa atitude “olhar, mas não tocar” nos transformou em astronautas que passam pelo ambiente natural. Nos isolamos de tal maneira da natureza que não podemos mais fazer parte dela. Nós não podemos deixar nenhum vestígio, como se simplesmente deixássemos de existir quando estamos em atividade ao ar livre. Isso simplesmente não é possível. É importante saber que vamos sempre deixar rastros e descobrir como podemos deixar o traço mais responsável é fundamental nesse processo. O distanciamento e isolamento da natureza pode ser muito mais danosos do que ter a ilusão de que somos capazes de não “deixar rastros”. Não deixar rastros visíveis e óbvios, aliás, é muito mais fácil do que parar para refletir sobre o que de fato é um rastro para natureza.

            Ás vezes a coisa mais responsável será fazer seu jantar em um fogão a gás. Mas as vezes a coisa mais responsável será cozinhar em uma fogueira. Tudo depende da situação e do local. Além do nível de conhecimento do campista.

            Mas, infelizmente, estamos caminhando sobre o regime de um dogma moderno - eliminar o uso do fogo, e qualificando a "Arte de Acender fogões a gás" e esquecendo as habilidades e filosofia por trás da vida ao ar livre.

Ed.


Para saber, mais recomendo a leitura dos artigos de Paul Von Horn. Em especial "The importance of traditional Woodcraft skills"



"Pense globalmente, aja localmente"






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